O diretor português Manoel de Oliveira, 101 anos, reabriu a caixinha misteriosa da "Bela da Tarde" e fez um bonito e irônico filme. “Sempre Bela” (Belle Toujours - França/Portugal, 2006) é uma homenagem artesanal ao clássico de Luis Buñuel. Uma obra de referência com vida própria, como uma Lãs Meninas, de Picasso.A ironia citada começa já na abertura (da caixa de Buñel) simples com a peça clássica executada pela Orquestra Gulbenkian. É nesse ambiente burguês que Séverine Serizy (Bulle Ogier) terá o desconforto de se encontrar com o passado interpretado pelo sádico Henri Husson (Michel Piccoli).
Henri vai persegui-la como uma sombra sobre a cidade luz. A cena da saída do personagem do teatro é um resumo do espírito da missão a ser cumprida: caçar e torturar. Ele rouba a energia (das luminárias externas do prédio) e confunde as regras (do trânsito).
Rico e sofisticado, o Henri, do Oliveira, compra e seduz no varejo, das prostitutas angelicais ao garçom cúmplice dos segredos dos clientes. Até mesmo o cineasta português entrega o filme ao coadjuvante do diretor espanhol e deixa a ex-estrela Séverine na periferia da narrativa.
E sob a batuta de Oliveira, Paris se transforma num labirinto iluminado pelo holofote da Torre Eiffel. O cenário é uma criação para desorientar a mulher que um dia foi a dona do (seu) desejo.
O jogo montado pelo diretor é uma narrativa simples. Um gato e uma rata no ritmo de uma sinfônica. Oliveira abre espaços para breves silêncios: são diálogos que trazem o (outro) roteiro de Buñel e Jean-Claude Carrière para dentro da nova história.
A isca para atrair a vítima (e o público) para um final de rara beleza é o segredo não revelado no original. E todos caminham para a armadilha. Séverine e os espectadores descobrirão o quanto a tortura dá prazer (ao algoz e à vitima). O jantar a dois a (ausência de) luz de velas perturba e hipnotiza a convidada e quem pagou para ver até o fim os 68 minutos de “Sempre Bela”.
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